Mário Silveira

Mário Silveira

Graduado em Psicologia pela Universidade Federal da Paraíba. Membro do Núcleo de Acolhimento e Escuta Psicológica, extensionista do serviço de Plantão Psicológico na Clínica Escola da UFPB. Bolsista do CNpQ pelo Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica.

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Alguns percursos

Um pouco sobre os meus percursos na Psicologia...

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Formação em Gestalt-terapia 10%
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Doutorado 0%

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  • Psicologia da Cacimba


    Meu pai sabe cavar cacimbas, sempre trabalhou com isso. Lembro que quando era criança eu o observava, da beirada, curioso e contemplativo. Tudo começa de um círculo desenhado ao chão com o dedo, feito normalmente mais ao fundo do quintal, longe de casa. Depois se torna um buraco pequeno e então ele vai dando as primeiras formas retirando o barro, acertando as margens com a chibanca e perfurando a história do chão até que ele se torne uma cratera, ganhando profundidade, escuridão e calor.
    Depois de observar um certo tempo notava que, para ver meu pai, precisava ir bem mais próximo da margem, dada a fundura que o buraco ia herdando em cada pancada. Ele já estava tão dentro que para retirar o barro, já a pá não servia, porque as paredes já estavam demasiadamente altas para a força de seus braços, então a gente punha uma corda num cesto (bem forte, feito de cipó) e o descia, vagarosamente. Quando meu pai o enchia, a gente puxava. Lembro que era muito interessante olhar a cor do barro que ia gradualmente se tornando mais escura e mais umedecida, depois, o próprio barro mais pedregoso, mais duro e firme. Era o sinal de que já estava perto de encontrarmo-nos com o famoso "olho d'água". Me recordo que irritava meu pai perguntando insistentemente, de meia em meia hora, inquieto e ansioso, sobre esse tal negócio: e aí, pai, já achou o ôi d’água? Ele suado, vendo meu esforço nenhum, respondia sempre ao mesmo modo, oras calmo, oras mais irritado: “ê, meu filho, já lhe disse! Rapadura é doce, mas não é mole não!”.
    Levava dias de serviço. As mãos de meu pai já todas endurecidas nem sofriam mais a dor da batida da chibanca na pedra, tantas tinham sido suas experiências. Algumas vezes, inclusive, dadas as condições geográficas do lugar, ele sentia falta de ar e tínhamos de retirá-lo às pressas, jogando a corda da engenhoca para baixo. Era um processo lento e difícil. Eu não compreendia como tudo aquilo acontecia! Areia, buraco, força, pai, barro, pedra... água!
    Quando a cacimba já atravessava todas as camadas e horizontes do solo desde a superfície, aquilo já era tão fundo que sequer enxergávamos o final. Meu pai nos provava então cientificamente que havia água ali jogando uma pedra grande. Primeiramente, a demora. Depois, o barulho da queda da pedra na água: “puffff!” De fato! Eu ficava abismado e alegre. Meu velho sorria com um ar de “Estão vendo? É água!”. Nem existem palavras que descrevam objetivamente tais emoções. Era singular aquele sentimento misturado de fé, entusiasmo, espanto e alegria.
    Talvez alguns de vocês estejam imaginando que ligações poderiam ter as cacimbas de meu pai assistidas na infância com esta aula, com este dia, ou mesmo conosco, aqui e agora.
    Mais singular que aquelas emoções foi o suto de ter me dado conta, que já muitos anos depois - embora achando que muita coisa tivesse mudado-, continuo eu sendo o mesmo observador de cacimbas que era na infância e ainda, que muitos de vocês aqui, talvez sejam, como o menino Mário, contempladores de cacimbas.
    Quando escolhi Psicologia, não tinha muitas certezas do que de fato isto seria para mim ou quais dimensões em minha vida isto tomaria. Quando cheguei aqui, demasiado sonhador, pensava sair um detentor de conhecimentos tão cientificamente corretos e tão suficientes sobre a mente humana que poderia predizer comportamentos, que me capacitaria a entender o indivíduo em sua total complexidade e de poder dizê-lo de tal modo que sequer ele próprio poderia ser capaz. Talvez aqueles fossem até os desejos da sociedade moderna refletidos em mim... mas hoje me parece tão distante esta perspectiva!
    Hoje, 30 de maio de 2016, depois de um semestre cansativo e cientificista, me encontro dentro da Psicologia da Cacimba e me parece extremamente claro que sempre estive, de algum modo que não sei qual, nela. Hoje mais do que qualquer outro dia tenho a certeza - de mim para mim mesmo -, que o que realmente quero dentro de minhas infinitas possibilidades é simplesmente me fazer presente no processo de escavação humana, facilitando o encontro com a água. Permitindo sentir quão escuro o poço fica junto com quem está lá dentro, na comunhão do encontro, cansado, sofrido, duro.
    Revendo tudo isso, vejo que há caminhos bem diferentes e que começo a traçá-los agora: eu não serei um mecânico consertando uma peça, não detenho saber algum sobre o outro que me possibilite consertá-lo. Sou, tão somente, um humano, diante do outro, em relação com as pessoas e o mundo. E isto embora possa soar a muitos ouvidos como raso, como pouco, como insubstancial, é, na verdade, ao menos para mim, extremamente profundo como o era a cacimba.
    Para mim faz muito sentido me referir a esta experiência como psicologia da cacimba, mas eu poderia dar outros nomes: Psicologia-do-pé-da-Aíla, Psicologia do coco, Psicologia da Jujuba fenomenológica, ou, ainda Psicologia da Clarice, que meses depois ainda não sei quem é. Outros e outros nomes e sentidos possam ser dados, não há uma definição certa para esta Psicologia. Ela apenas é. E sou muitíssimo grato por tê-la conhecido. Isto não seria possível não fosse pelo carinho, dedicação e amor de vocês, Marcela, Anderson e Sandra.

    Muitíssimo obrigado pela melhor disciplina que eu já cursei na minha vida!

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    Psicologia da Cacimba

    Meu pai sabe cavar cacimbas, sempre trabalhou com isso. Lembro que quando era criança eu o observava, da beirada, curioso e contemplati...

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